Existem basicamente dois grupos de serpentes, as peçonhentas e as não peçonhentas, mas o que,de fato, é uma serpente peçonhenta?
É considerado peçonhento um animal que, produz uma substância tóxica ativa em humanos e que tenha um mecanismo (presas, aguilhão, quelíceras,ferrão ou cerdas) capaz de injetar essa substância de forma eficaz em humanos.
Com as serpentes, uma característica determinante para classificar como peçonhenta é o tipo de dentição, existem quatro tipos mais comuns de dentição.
Tipos mais comuns de Dentição em Serpentes
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OPISTÓGLIFA – Dentição com um ou mais dentes modificados na parte posterior da maxila.Essas presas possuem sulcos longitudinais, dos quais, por capilaridade, escorre o produto de uma glândula especializada na secreção de substâncias ativas, a glândula de Duvernoy.

PROTERÓGLIFA – Dentição em que presas anteriores, no maxilar, geralmente com canal de
veneno não completamente fechado, estão conectadas à glândula venenosa. Alguns gêneros conservam
dentes posteriores à presa, mas em Micrurus a presa é o único dente maxilar.
SOLENÓGLIFA – Dentição com uma condição muito especializada em que um único dente
funcional em cada maxila, a presa, é extremamente grande, agudo e oco, e permanece paralelo ao crânio
quando em repouso, mas gira 90º, no momento do ataque, para injetar o veneno.
Múltiplos estudos da morfologia do crânio e das dentições de espécies viventes têm tentado explicar como se deu o processo evolutivo, que partiu das formas tidas como mais primitivas, não venenosas, até chegar aos níveis mais evoluídos, com glândulas venenosas e músculos compressores e presas
com um canal interno fechado, que conduzem as secreções tóxicas até o interior dos tecidos das vítimas, causando morte rápida.
Tradicionalmente, são caracterizados quatro estágios evolutivos bem marcados nas serpentes, que
representam com simplicidade o universo complexo de adaptações morfológicas da especialização peçonhenta,
Na figura ao lado, temos a reprodução do provável processo de especialização do processo de produção de peçonha e dentição nas serpentes, onde um conjunto dentário evoluiu juntamente com uma glândula produtora de secreção, (A) Dentição áglifa; (B)Dentição opistóglifa;(C) dentição proteóglifa; (D) Solenóglifa, gls - Glândula supralingual, gD- Glândula de Duvernoy, gv - Glândula venenosa
Mas conferir o tipo de dentes de uma serpente está longe de ser a maneira mais segura e prática de saber se uma serpente é ou não peçonhenta, então, para fins práticos, adotamos um conjunto de indicadores que ,quando combinados, podem dar base para identificar se a serpente é ou não peçonhenta.
Temos no Brasil 4 grupos de serpentes peçonhentas, o grupo das Jararacas, das Cascavéis, da Surucucu e das Cobras-corais, desta forma, torna-se mais viável conhecer as características dos membros desses grupos para se saber se é ou não peçonhenta.
Uma das mais evidentes características da subfamília Crotalinae , que incluem as Jararacas, Surucucu e Cascavel , é a presença de uma estrutura termo-receptora chamada fosseta loreal, localizada entre a narina e o olho, em ambos os lados da rosto da serpente.
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| fosseta loreal em destaque |
‘fossetas loreais’, são características da subfamília Crotalinae, são importantes para uma rápida identificação das serpentes, que causam 99% dos acidentes no Brasil e em outros países da América Latina.
No grupo Bothrops (jararacas, urutus, caiçacas...) , além da presença da fosseta loreal, nota-se as escamas da cabeça do mesmo tamanha das do corpo e possuem a cauda lisa, geralmente com escamas subcaudais em pares.
No grupo Lachesis (Surucucu-pico-de-jaca) , além da fosseta loreal, nota-se as escamas do corpo cônicas, semelhante à fruta jaca a cauda com as últimas fileiras de escamas subcaudais modificadas e eriçadas, terminando num espinho na cauda.
No gênero Crotalus (cascavel) nota-se além da fosseta loreal, a cauda terminada em um apêndice articulado, o chocalho ou guizo.
Agora que já vimos as características da família Viperidae, vamos conhecer a família Elapíde, que contempla as Corais-verdadeiras
A família Elapidae é formada, por serpentes dotadas de um aparelho inoculador do tipo proteróglifo e encontra-se amplamente distribuída pelo planeta,sendo a maioria pertencente ao gênero Micrurus e apenas três ao gênero Leptomicrurus (até o momento).
Essas serpentes apresentam a cabeça oval, recoberta por grandes placas simétricas, não possuem fossetas loreais como nossos Viperídeos, e os olhos são pequenos e pretos, com pupila elíptica vertical. Pelo seu hábito fossorial, a musculatura cervical é bem desenvolvida, fazendo com que o pescoço não é seja muito acentuado. O corpo, cilíndrico, é recoberto por escamas lisas, e a cauda, curta e roliça. A maioria das espécies possui a coloração típica de ‘cobra coral’, com anéis completos em torno do corpo, de cores vivas e contrastantes – vermelho, amarelo (ou branco) e preto –, em arranjos característicos, com os anéis pretos dispostos isoladamente ou em tríades. Exceção a essa regra são as espécies de Leptomicrurus, de cor preta uniforme no dorso, sem anéis, e com manchas amareladas na região ventral. Da mesma forma, Micrurus annellatus não apresenta anéis vermelhos. As corais são animais de hábitos fossoriais ou subfossoriais, habitando principalmente a camada superficial do solo, ou sob o colchão de folhas que cobre o chão das matas. Eventualmente, saem à superfície à procura do alimento, ou para acasalar, ou ainda depois de chuvas fortes. A alimentação geralmente é composta por pequenas serpentes e anfisbenídeos.
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| Dentição de Micrurus surinamensis- Foto: Renato Gaiga |
O conjunto de limitações anatômicas e funcionais, associado à pouca agressividade dessas serpentes, explica a baixíssima incidência de acidentes humanos por corais, em torno de 0,5%, de acordo com a estatística do Ministério da Saúde, normalmente envolvendo pessoas que manipulam esses animais. Uma característica saliente na biologia das cobras corais está associada com o colorido vivo e contrastante chamado de aposemátismo. Essa coloração de alerta é imitada por serpentes não peçonhentas,chamadas de espécies miméticas, sobretudo da família Colubridae, conhecidas como ‘falsas corais’. Essa capacidade extraordinária de imitação das falsas corais fazem da identificação precisa algo bastante complexo, sendo fortemente recomendado que se considere como peçonhenta qualquer serpente com o padrão apresentado pelas corais!





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